terça-feira, 6 de outubro de 2026

OS ROBÔS E EU E, AGORA, O FATOR I. A.




Linha de montagem do Polara

Década de 70 (S.B. do Campo)






Lá pelos idos da década de 70, eu assentava meus filhos pequenos no banco traseiro do Dodginho Polara (Chrysler) e saía pelo ABC e São Paulo nalguns passeios e regularmente à rua 7 de Abril numa lanchonete "Jack in the box" (acho que não existe mais) sofisticada e todos lanchando os abomináveis hamburgueres, inclusive de linguiça.

Argh!

Nessas idas e vindas, para acalmar as crianças impacientes lá atrás, eu contava histórias e, repetindo muitas vezes, o primeiro conto do livro "Eu Robot", de Isaac Asimov, obra lançada em 1950.









É a história do robô mudo Robbie, espécie de ama-seca da menina Glória com quem interagia como se humano fosse. A mãe da Glória implicava com a máquina que poderia ser perigosa até o ponto em que Robbie é devolvido ao fabricante.

Glória sofre muito com a separação, sempre esperando que Robbie volte:

— "Por que está chorando, Glória? Robbie era apenas uma máquina, uma máquina velha e feia (...) 

— “Ele 'num' era nenhuma máquina!”, gritou Glória ferozmente. Ele era uma ‘pessoa’, como eu e você; e era meu amigo. Quero Robbie de volta."

Até que depois de um tempo por injunção do pai, a família visitou a fábrica para mostrar à menina que os robôs não passavam de máquinas que se movimentavam.

Quando Glória, ao longe, avista Robbie, corre em sua direção sem perceber que perigosamente se aproximava um trator pesado na iminência de atropelá-la mortalmente.

Robbie avança e a salva a tempo.

O robô já obsoleto, então, é aceito de volta à casa cuidando da menina Glória.

Esse conto de Assimov fazia muito sucesso entre os meus filhos pequenos.

Logo na abertura, o livro dá a conhecer as três leis da robótica:
1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal;

2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e

3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores. 

Será que essas leis serão, afinal, cumpridas?

Escrevi um artigo publicado em março de 1983 entre os vários temas de interesse me referi ao avanço da automação e introdução de robôs nas linhas de montagem da indústria automobilística.

Tudo nesse tempo e nesse tema havia lá suas desconfianças, descrenças e até "profecias".

A introdução dessas máquinas trazia indagações, noticiando um acidente do trabalho fatal que chamaria a atenção para o "milagre japonês" e seu eficiente sistema de robôs, que já ia sendo implantado intensamente. A morte do operário japonês Kenji Urada, de 37 anos, for noticiada com detalhes:  

"Urada morreu quando tentava consertar um requintado robô, vendido ao preço de 46 mil dólares (...) que distribuía peças a máquinas montadoras de caixa de câmbio para automóveis e pode ser programado, ainda, para trabalhos de soldagem e pintura. E morreu por ter desrespeitado normas básicas de segurança. Ele pulou a corrente que circunda o robô a alguns centímetros do solo — quando o correto seria utilizar-se de uma portinhola que, aberta, o desativaria de imediato. O operário preferiu desligar a máquina com as próprias mãos, mas, depois, tocou inadvertidamente no mesmo botão. Colhido no peito pelo braço de aço do robô, Urada teve morte instantânea". (Revista Veja de 16.12.1981).

Os robôs nos meios de produção geraram polêmica. Os sindicatos reconheciam que a automação tendia a substituir trabalhadores. Alguns setores industriais foram adotando robôs apenas para atividades insalubres ou penosas.

Mas, essa tecnologia com os resultados que trazia (e traz) não ficaria só nisso.

Em meio à essa polêmica anunciaram-se estudos identificadores do impacto dos robôs sobre a mão-de-obra, com intuito de determinar regras para sua implantação.

Nunca soube desses estudos e quais regras, tanto que os robôs devagar foram sendo instalados em diferentes atividades da produção, especialmente na indústria automobilística.

Já se disse eu digo tanto quanto, que os robôs são incansáveis, o seu ambiente é limpo, não são sindicalizados, não descansam, não fazem greve e são extremamente eficientes e  lucrativos, porque não há salários e não há encargos adicionados.









E o que nos reserva o futuro com o avanço dos robôs?

(...) no fim deste século (XX), a máquina terá provavelmente alcançado o "homo sapiens". "Dentro de 20 ou 30 anos — diz Hans Moravec, "pai" do robô de nove olhos — as máquinas serão tão inteligentes quanto nós. "A longo prazo os humanos não terão outra coisa senão abdicar".

Essa "profecia" é de 1981. (Jornal “O Estado” de 13.09.1981)

Desse modo, a automação e os robôs nas empresas dos mais variados ramos tornaram-se realidade irreversível.

Profissionais, naquelas profissões menos especializadas, foram substituídos em larga escala, dando-se a exoneração inevitável. Os robôs fazem com precisão milimétrica inumeráveis atividades antes desenvolvidas por dezenas de profissionais.

A linha de montagem da Chrysler (linha Dodge) embora automática era lenta, e a produção toda manual.

Em 1989 já seis anos longe da indústria automobilística, conheci a linha de montagem da Chrysler em Detroit. A operação na montagem dos carros era muito rápida: começava num extremo a configuração das carcaças e no final da linha os carros saíam praticamente prontos,  pela ação dos robôs, com baixo número de profissionais presentes.

Naquela oportunidade confirmei a minha "suspeita" de que essa tecnologia haveria de ter forte impacto sobre o mercado de trabalho e sobre a mão de obra num nível mundial.

Os fatos hoje revelam tais mudanças de modo impressionante.

Na década de 80 a VW, por exemplo, tinha cerca de 35 mil empregados. Em 2022, apenas 8.200. Essa redução de efetivo não tem a ver com eventual "diminuição da demanda" da marca, mas, sobretudo, com a automação. 

Esse quadro é uma realidade.

                                               ***

No meio cinematográfico, há filmes de ficção que exploram o domínio da inteligência artificial sobre as ações e sobre a inteligência humana e, nesses casos, os robôs ignoraram aquelas três leis da robótica de Asimov. 

O mais emblemático é o filme de Stanley Kubrick, "2001, uma Odisseia no Espaço" de 1968.

Nesse filme admirável, estabelecera-se, então, uma viagem interplanetária para Júpiter, cuja nave seria toda controlada por um computador poderosíssimo, o Hal 9000, infalível, revelando "sentimentos", especialmente o da arrogância.  Ameaçado de ser desconectado, depois de um erro inexplicável na missão, tornou-se rebelde e assassino da tripulação sendo por fim desligado pelo último sobrevivente.

Há filmes nos quais os robôs são muito mais cruéis e desdenham da mortalidade do ser humano.

Um deles, "Alians Covenant" de 2017 do diretor Ridley Scott.

Diálogo entre o criador do robô e o próprio robô batizado de Davi inspirando-se na imagem de Davi, a escultura perfeita de Michelangelo:

— Eu sou o seu criador, você me deve obediência.
— Se você é meu criador, quem o criou? pergunta o robô.
— A dúvida é de onde viemos...
— Mas, como humano, você é mortal e eu sou imortal.
— Davi me sirva um chá, agora, ordena o criador, para confirmar sua autoridade.
Davi obedece.

            O robô Davi seria escalado para assessorar missões interplanetárias e se revela cruel, inclusive cultivando 'óvulos' de "xenomorfos", aqueles monstros horrorosos, violentos e carnívoros do tipo visto no filme "O oitavo passageiro".

Davi desdenhando dos homens: "Eles são humanos, eles morrem."

Mas, abreviando o tempo dessa discussão, no meio científico indagam-se as consequências do aperfeiçoamento da IA — Inteligência Artificial do controle da informação, da desinformação, da liberdade de pensamento, do controle político mencionando-se mesmo os riscos à democracia e à própria liberdade.

Quem, afinal de contas, controlará esse poder imenso que pode resultar do aperfeiçoamento da IA?  

Nas várias atividades que pode responder a IA, há a possibilidade de manifestar-se algo parecido com o sentimento humano, nas suas virtudes e tragédias.

Num artigo publicado no The New York Times (de Yuval Arari, Tristan Harris e Aza Raskin), num trecho há esta indagação:

"O que significaria para os humanos viver em um mundo no qual uma grande porcentagem das narrativas, melodias, imagens, leis, políticas e ferramentas é moldada por inteligência não humana, que sabe como explorar com eficiência sobre-humana fraquezas, vieses e vícios da mente humana — ao mesmo tempo que sabe formar relações íntimas com os seres humano?" 

Essas proposições escapam da ficção, como a convivência da menina Glória e seu Robbie no livro de Isaac Asimov. 

E a IA não necessariamente seguirá os princípios morais da "lei da robótica"! Bom que se diga que nos modelos atuais, já houve indícios de "desobediências".

Fora já "profetizado", como acima mencionado, que os humanos com essa tecnologia não terão outra coisa que não seja "renunciar".

Nesse mesmo artigo do NYT, é esclarecido que numa sondagem feita em 2022, entre mais de 700 acadêmicos e pesquisadores, metade deles "declarou que existe uma chance de 10% ou mais de extinção da humanidade (ou alguma insegurança similarmente permanente e grave) provocada por sistemas de IA." ("Será a inteligência artificial o começo de nosso fim?").

Na sua encíclica “Magnifica Humanitas” (“Humanidade Magnífica”) o papa Leão XIV expõe toda a sua preocupação com o avanço da Inteligência Ar tificial, destacando entre os diversos pontos, os efeitos sobre os empregos porque o trabalho é, sobretudo, “um requisito da condição humana, um caminho natural para a maturidade, o desenvolvimento e a realização pessoal”, pelo que pede atenção especial à garantia de oportunidades. E pedem cautela às experiências que avançam.

Queiram ou não, já estamos renunciando.

                                               ***

Não há como esquecer a internet no avanço de toda essa tecnologia, incluindo as comunicações instantâneas. Então, encerro por aqui estas reflexões, deixo em aberto as decorrências de seu aperfeiçoamento, porque pelo jeito como as inovações surgem e pela rapidez como surgem, muitos terão oportunidade de escrever os novos capítulos desse tempo fantástico e assustador que advirá. E devem escrever com a IA...

Mas, uma pergunta: com a evolução da IA quais mãos e quais mentes a controlarão?

 

 

 

 

 

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