Linha de montagem do Polara
Década de 70 (S.B. do Campo)
Lá pelos idos da década de 70, eu assentava meus filhos pequenos no banco traseiro do Dodginho Polara (Chrysler) e saía pelo ABC e São Paulo nalguns passeios e regularmente à rua 7 de Abril numa lanchonete "Jack in the box" (acho que não existe mais) sofisticada e todos lanchando os abomináveis hamburgueres, inclusive de linguiça.
Argh!
Nessas idas e vindas, para
acalmar as crianças impacientes lá atrás, eu contava histórias
e, repetindo muitas vezes, o primeiro conto do livro "Eu Robot",
de Isaac Asimov, obra lançada em 1950.
É a história do robô mudo
Robbie, espécie de ama-seca da menina Glória com quem interagia como se humano
fosse. A mãe da Glória implicava com a máquina que poderia ser perigosa até o
ponto em que Robbie é devolvido ao fabricante.
Glória sofre muito com a
separação, sempre esperando que Robbie volte:
— "Por que está chorando,
Glória? Robbie era apenas uma máquina, uma máquina velha e feia (...)
— “Ele 'num' era
nenhuma máquina!”, gritou Glória ferozmente. Ele era uma ‘pessoa’, como eu e
você; e era meu amigo. Quero Robbie de volta."
Até que depois de um tempo por
injunção do pai, a família visitou a fábrica para mostrar à menina que os robôs
não passavam de máquinas que se movimentavam.
Quando Glória, ao longe,
avista Robbie, corre em sua direção sem perceber que perigosamente se
aproximava um trator pesado na iminência de atropelá-la mortalmente.
Robbie avança e a salva a
tempo.
O robô já obsoleto, então, é
aceito de volta à casa cuidando da menina Glória.
Esse conto de Assimov fazia
muito sucesso entre os meus filhos pequenos.
Logo na abertura, o livro dá a
conhecer as três leis da robótica:
1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum
mal;
2)
os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais
ordens entrem em conflito com a primeira lei; e
3)
um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito
com as leis anteriores.
Será que essas leis serão,
afinal, cumpridas?
Escrevi um artigo publicado em
março de 1983 entre os vários temas de interesse me referi ao avanço da
automação e introdução de robôs nas linhas de montagem da indústria
automobilística.
Tudo nesse tempo e nesse tema
havia lá suas desconfianças, descrenças e até "profecias".
A introdução dessas máquinas trazia indagações, noticiando um acidente do trabalho fatal que chamaria a atenção para o "milagre japonês" e seu eficiente sistema de robôs, que já ia sendo implantado intensamente. A morte do operário japonês Kenji Urada, de 37 anos, for noticiada com detalhes:
"Urada
morreu quando tentava consertar um requintado robô, vendido ao preço de 46 mil
dólares (...) que distribuía peças a máquinas montadoras de caixa de câmbio
para automóveis e pode ser programado, ainda, para trabalhos de soldagem e
pintura. E morreu por ter desrespeitado normas básicas de segurança. Ele pulou
a corrente que circunda o robô a alguns centímetros do solo — quando o correto
seria utilizar-se de uma portinhola que, aberta, o desativaria de imediato. O
operário preferiu desligar a máquina com as próprias mãos, mas, depois, tocou
inadvertidamente no mesmo botão. Colhido no peito pelo braço de aço do robô,
Urada teve morte instantânea". (Revista
Veja de 16.12.1981).
Os robôs nos meios de produção
geraram polêmica. Os sindicatos reconheciam que a automação tendia a substituir
trabalhadores. Alguns setores industriais foram adotando robôs apenas para
atividades insalubres ou penosas.
Mas, essa tecnologia com os
resultados que trazia (e traz) não ficaria só nisso.
Em
meio à essa polêmica anunciaram-se estudos identificadores do impacto dos robôs
sobre a mão-de-obra, com intuito de determinar regras para sua implantação.
Nunca soube desses estudos e
quais regras, tanto que os robôs devagar foram sendo instalados em diferentes
atividades da produção, especialmente na indústria automobilística.
Já se disse eu digo tanto quanto, que os robôs são incansáveis, o seu ambiente é limpo, não são sindicalizados, não descansam, não fazem greve e são extremamente eficientes e lucrativos, porque não há salários e não há encargos adicionados.
E o que nos reserva o futuro com o avanço dos robôs?
(...)
no fim deste século (XX), a máquina terá provavelmente alcançado o "homo
sapiens". "Dentro de 20 ou 30 anos — diz Hans Moravec,
"pai" do robô de nove olhos — as máquinas serão tão inteligentes
quanto nós. "A longo prazo os humanos não terão outra coisa senão
abdicar".
Essa "profecia" é de
1981. (Jornal “O Estado” de 13.09.1981)
Desse modo, a automação e os
robôs nas empresas dos mais variados ramos tornaram-se realidade irreversível.
Profissionais, naquelas
profissões menos especializadas, foram substituídos em larga escala, dando-se a
exoneração inevitável. Os robôs fazem com precisão milimétrica inumeráveis
atividades antes desenvolvidas por dezenas de profissionais.
A linha de montagem da
Chrysler (linha Dodge) embora automática era lenta, e a produção toda manual.
Em 1989 já seis anos longe da
indústria automobilística, conheci a linha de montagem da Chrysler em
Detroit. A operação na montagem dos carros era muito rápida: começava num
extremo a configuração das carcaças e no final da linha os carros saíam praticamente
prontos, pela ação dos robôs, com baixo
número de profissionais presentes.
Naquela oportunidade confirmei
a minha "suspeita" de que essa tecnologia haveria de ter forte
impacto sobre o mercado de trabalho e sobre a mão de obra num nível mundial.
Os fatos hoje revelam tais
mudanças de modo impressionante.
Na década de 80 a VW, por
exemplo, tinha cerca de 35 mil empregados. Em 2022, apenas 8.200. Essa redução
de efetivo não tem a ver com eventual "diminuição da demanda" da
marca, mas, sobretudo, com a automação.
Esse quadro é uma realidade.
***
No meio cinematográfico, há
filmes de ficção que exploram o domínio da inteligência artificial sobre as
ações e sobre a inteligência humana e, nesses casos, os robôs ignoraram aquelas
três leis da robótica de Asimov.
O mais emblemático é o filme
de Stanley Kubrick, "2001, uma Odisseia no Espaço" de 1968.
Nesse filme admirável,
estabelecera-se, então, uma viagem interplanetária para Júpiter, cuja nave
seria toda controlada por um computador poderosíssimo, o Hal 9000, infalível,
revelando "sentimentos", especialmente o da arrogância. Ameaçado
de ser desconectado, depois de um erro inexplicável na missão, tornou-se
rebelde e assassino da tripulação sendo por fim desligado pelo último
sobrevivente.
Há filmes nos quais os robôs
são muito mais cruéis e desdenham da mortalidade do ser humano.
Um deles, "Alians
Covenant" de 2017 do diretor Ridley Scott.
Diálogo entre o criador do
robô e o próprio robô batizado de Davi inspirando-se na imagem de Davi, a
escultura perfeita de Michelangelo:
— Eu
sou o seu criador, você me deve obediência.
— Se você é meu criador, quem o criou? pergunta o robô.
— A dúvida é de onde viemos...
— Mas, como humano, você é mortal e eu sou imortal.
— Davi me sirva um chá, agora, ordena o criador, para
confirmar sua autoridade.
Davi obedece.
O robô Davi seria escalado para assessorar
missões interplanetárias e se revela cruel, inclusive cultivando 'óvulos' de
"xenomorfos", aqueles monstros horrorosos, violentos e
carnívoros do tipo visto no filme "O oitavo passageiro".
Davi desdenhando dos
homens: "Eles são humanos, eles morrem."
Mas, abreviando o tempo dessa
discussão, no meio científico indagam-se as consequências do
aperfeiçoamento da IA — Inteligência Artificial do controle da informação,
da desinformação, da liberdade de pensamento, do controle político mencionando-se
mesmo os riscos à democracia e à própria liberdade.
Quem, afinal de contas,
controlará esse poder imenso que pode resultar do aperfeiçoamento da
IA?
Nas várias atividades que pode
responder a IA, há a possibilidade de manifestar-se algo parecido com o
sentimento humano, nas suas virtudes e tragédias.
Num artigo publicado no The
New York Times (de Yuval Arari, Tristan Harris e Aza Raskin), num trecho há
esta indagação:
"O
que significaria para os humanos viver em um mundo no qual uma grande
porcentagem das narrativas, melodias, imagens, leis, políticas e ferramentas é
moldada por inteligência não humana, que sabe como explorar com eficiência
sobre-humana fraquezas, vieses e vícios da mente humana — ao mesmo
tempo que sabe formar relações íntimas com os seres humano?"
Essas proposições escapam da
ficção, como a convivência da menina Glória e seu Robbie no livro de Isaac
Asimov.
E a IA não necessariamente seguirá os princípios morais da "lei da robótica"! Bom que se diga que nos modelos atuais, já houve indícios de "desobediências".
Fora já
"profetizado", como acima mencionado, que os humanos com essa
tecnologia não terão outra coisa que não seja "renunciar".
Nesse mesmo artigo do NYT, é
esclarecido que numa sondagem feita em 2022, entre mais de 700 acadêmicos
e pesquisadores, metade deles "declarou que existe uma chance de 10% ou
mais de extinção da humanidade (ou alguma insegurança similarmente permanente e
grave) provocada por sistemas de IA." ("Será a inteligência
artificial o começo de nosso fim?").
Na sua encíclica “Magnifica
Humanitas” (“Humanidade Magnífica”) o papa Leão XIV expõe toda a sua
preocupação com o avanço da Inteligência Ar tificial, destacando entre os
diversos pontos, os efeitos sobre os empregos porque o trabalho é, sobretudo,
“um requisito da condição humana, um caminho natural para a maturidade, o
desenvolvimento e a realização pessoal”, pelo que pede atenção especial à
garantia de oportunidades. E pedem cautela às experiências que avançam.
Queiram ou não, já estamos
renunciando.
***
Não há como esquecer a
internet no avanço de toda essa tecnologia, incluindo as comunicações
instantâneas. Então, encerro por aqui estas reflexões, deixo em aberto as
decorrências de seu aperfeiçoamento, porque pelo jeito como as inovações surgem
e pela rapidez como surgem, muitos terão oportunidade de escrever os novos
capítulos desse tempo fantástico e assustador que advirá. E devem escrever com
a IA...
Mas, uma pergunta: com a evolução da IA quais mãos e quais mentes a controlarão?







