Homem segura garota no colo e posa para foto em frente a um grande mural que retrata o presidente da China, Xi Jinping (no centro), e outros líderes chineses em uma praça pública em Lhasa, na Região Autônoma do Tibete na base do Palácio de Potala em 1º de junho de 2021 (O Tibete foi invadido pelas forças da China de Mao em 1950). Foto: Getty Images via BBC - G1 de 23.07.21
Lembro
bem, no inicio da década de 80, compartilhando um escritório com um
advogado muito religioso, aqueles que nos fins de semana saíam com a
Bíblia debaixo do braço procurando fiéis, disse-me ele, dentro de sua crença, que a
China seria o agente do mal para o mundo, a mente do anticristo o qualificativo que ele
dava, então.
Pois
não fazia muito, a China com a mão de ferro de Mao Tse Tung,
falecido em 1976 com sua violência e reformas fracassadas, levaram o
imenso país ao caos, significando perseguições políticas ou não,
nestes os intelectuais, milhares de mortos pelo regime e,
principalmente, a fome generalizada.
Ninguém
me disse, mas minha conclusão elementar é de que vêm daqueles
tempos morcegos e ratos, escorpiões no espeto e baratas como alternativas alimentares. E ainda hoje, nos seus mercados a céu aberto
se constata quão nauseantes são alguns alimentos oferecidos, locais
sem higiene. E até digo sem medo de errar, qualquer animal era ou é oferecido e alguns trucidados na frente do freguês.
Mas,
então, já com Deng Xiaoping no poder, ele começa a mudar
radicalmente toda a estrutura caótica de Mao. Em 1979 visita os
Estados Unidos e não é possível avaliar o que pensara ao ver de
perto a modernidade americana naqueles tempos, aquelas cidades
suntuosas, o progresso técnico, a modernidade, a liberdade.
Então,
voltando aos primeiros anos da década de 80, mostro ao meu amigo religioso, a manchete estampada no jornal que daqui a
poucos anos completará 150 anos de circulação:
"A
China abre-se para o mundo!"
E
assim, nessa luta pela abertura de mercado, pelo que eu me lembre,
vinha da China tudo quando era quinquilharia, de má qualidade, mas tenho comigo uma frase de Sun ‘Tzu no livrinho “A Arte da
guerra”:
“Aparente
inferioridade e provoque a arrogância do adversário”.
Com
o passar dos anos, a China foi se inserindo no mercado em todas as
atividades econômicas, apreendendo as prioridades do mundo
globalizado e partindo para dominar muitas atividades de interesse
para o mundo e avançando para a alta tecnologia.
Nestes
tempos de pandemia, a par de acusações que lhe são feitas de que o
vírus escapara de algum dos seus laboratórios, a China se tornou
referência no fornecimento de insumos sem os quais as muitos milhões de vacinas não
poderiam ser produzidas. Neste ano de 2021, seu pequeno veículo
“rover” pousou com êxito em Marte como já fizera e faz a NASA.
A
China, pode-se dizer, produz tudo, inclusive veículos de qualidade.
O país não perde tempo em conhecer e criar tecnologias.
Essas
são realidades notórias hoje.
Mas,
e a atuação politica de modo global?
Marx
e Hengel, presenciado a classe trabalhador aviltada pelo capital
nascente em meados do século 19, desenvolveram a tese que seria
conhecida como marxismo, que consistia no controle dos meios de
produção pelo Estado que propiciaria um quadro de vida mais
saudável ao proletariado, inclusive com educação gratuita para
todos. E esta ameaça:
"Que
as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução comunista!
Os proletários nada têm a perder a não ser suas cadeias. Têm um
mundo a ganhar."
Essas
ideias de um modo ou outro tiveram influência em todo
o mundo. Com o passar dos anos, melhoras foram sendo
introduzidas no mercado de trabalho capitalista por força de teses socialistas.
Em
1917 eclodiu a Revolução russa que implantou o comunismo que pouco
tempo depois se constituiria num regime ditatorial violento,
comandado por Stalin. Para ele, a solução para seus opositores era a
assassinato. Opositor importante, Trotsky exilado no México, foi
assassinado em 1940.
Com
a morte de Stalin, em 1953, seus sucessores voltaram-se
gradativamente para o Ocidente, mas sempre mantendo o regime
comunista centralizado. Com o passar do tempo, porém, com o
desmantelamento da União Soviética em 1991classifica-se hoje o regime
russo como uma republica. A Rússia não é
mais comunistas? Não é, mas tem ranços após décadas de um regime
cruel imposto pelo stalinismo e sucessores mais moderados. Putin de um modo ou outro está no
poder desde 1999 mas pode disputar a reeleição mais duas vezes
podendo governar até 2036 (!)
E
a China? Voltemos a ela, agora que o Partido Comunista Chinês
completa neste ano, um século. Da China do pragmático Xi Jinping.
As
notícias que de lá vêm dão conta de que o regime, autoritário
como é, tem se voltado a um processo de oferecer uma melhora na vida
do povo chinês como por exemplo, aboliu os impostos rurais a par de criar "um sistema de bem-estar que fornece pensões e assistência médica
subsidiada a todos”, mesmo que com limitações, mas agradando a
maioria. Afirme-se, contudo, que a jornada diária de trabalho chinesa ainda é extensa.
E
mais,
“Se
a declaração de independência dos EUA diz que os homens livres
devem buscar a felicidade como lhes parece melhor, a mídia chinesa
afirma que o partido busca “felicidade do povo” algo que virá de
cima para baixo.” (“Estadão” via “The Economist” de
07.07.2021),
[Não
dá para comparar a China de hoje, com o comunismo sufocante de antes
que se mantém na Coreia do Norte, país que o povo tem que chorar
quando o ditador “chora”].
Eu
acho que esse socialismo do bem-estar como se desenha na China, ou
como apregoado, pode ser sintetizado pelo que disse o embaixador
chinês no Brasil, Yang Wanming:
"No
primeiro centenário, o país construiu uma sociedade
modernamente próspera. Inicia no segundo a transformação num país
moderno e poderoso. O socialismo com características chinesas é o
caminho assentado em sintonia em sintonia com a realidade nacional e
a tendência dos tempos. Os diferentes percursos históricos deram
origem a uma profusão de culturas e sistemas sociais, o que
faz com que existam vários modelos de democracia. Para 2049 (100
anos da República Popular), o governo cria um novo paradigma de
desenvolvimento e eleva seu nível de reforma e abertura ao exterior.
Sozinho, nenhum país estará imune aos riscos e desafios
globais". ("Estadão" de 18.07.2021),
O
embaixador ainda fala na preocupação chinesa com as severas
alterações climáticas destes tempos e também: "Solidariedade
e convivência harmoniosa são a única alternativa para a
humanidade. A China trabalhará com todos os países do mundo para
promover os valores comuns de paz, progresso, equidade, justiça,
democracia e liberdade, praticar um verdadeiro multilateralismo,,,"
Esse
socialismo de bem-estar, nem sei se imaginado por Marx-Engel nesses
termos, aliado à sua tecnologia excepcional, seu poderio econômico,
suas necessidades de alimentos para mais de 1 bilhão de chineses,
tolerante com algumas regiões, principalmente as de sua tradição,
de que modo influenciará a mundo todo, considerando que não parece
querer mudar seu regime comunista autoritário?
E
o confronto com os Estados Unidos que, tudo indica a China os
superará brevemente nos campos tecnológicos e econômico?
Porque
diz o Partido Comunista da China que merece governar por causa das
coisas incríveis que faz.
Ainda
não esqueci a preocupação daquele advogado religioso que
vaticinou a China como o grande vilão espiritual do planeta.
Talvez
não chegue a tanto. Uma incógnita que os próximos anos
poderão responder.